Número 12 - Ano 4 – abril, maio e junho de 2009.
 
Juçara Quinteros de Farias Chefe da Seção de Conservação e Restauração da Câmara dos Deputados coordena oito funcionários com deficiência intelectual, em um projeto de higienização do acervo documental na Câmara.
 



Iniciativas que garantem a inclusão da pessoa com deficiência intelectual no mercado de trabalho

O acesso da pessoa com deficiência intelectual ou múltipla no mercado de trabalho ainda é muito restrito, se comparado às demais deficiências. Alguns estudos chegam a apontar a ordem de preferência na contratação desse público e o deficiente intelectual, geralmente, encontra-se em último lugar.

Pode-se afirmar que o principal fator que leva a não-contratação de deficientes intelectuais é a falta de conhecimento, por parte de gestores e empresários, do potencial dessas pessoas. Normalmente, confunde-se o conceito de deficiência intelectual com "loucura", o que reforça a ideia de que os mesmos não podem ser inseridos no mercado de trabalho.

A entrevista desta edição é com Juçara Quinteros de Farias, formada em Química, com mestrado na Área de Conservação e Preservação de Bens Culturais. Juçara é funcionária da Câmara dos Deputados há 22 anos, sendo que, em 2007, passou a ser chefe da Seção de Conservação e Restauração da Casa. Desde dezembro do ano passado, coordena oito funcionários com deficiência intelectual, em um projeto de higienização do acervo documental na Câmara.

Boletim Apae — Por que você optou pela contratação de jovens com deficiência intelectual?

Juçara — A Câmara dos Deputados, em sua estrutura organizacional, dispõe de uma Assessoria de Projetos Especiais. Dentre os vários projetos desenvolvidos está o Projeto de Acessibilidade que trata especificamente da inclusão social de pessoas portadoras de necessidades especiais. Considerando a capacitação e a especialização desses jovens na área de higienização de acervo documental e, tendo em vista o extenso acervo da Casa que necessitava, com urgência, desse tipo de tratamento, decidiu-se que seria uma ação não somente em benefício da categoria mas, fundamentalmente, em prol da sociedade, por se tratar da preservação histórica e cultural do nosso país. A assinatura do contrato foi realizada no Dia da Acessibilidade, em 3 de dezembro de 2008.

Boletim Apae — Como tem sido a experiência em trabalhar com estes jovens?

Juçara — A nossa experiência não poderia ser melhor, além da qualidade dos serviços prestados, são excelentes colegas de trabalho.

Boletim Apae — Houve algum tipo de adaptação para receber esses funcionários?

Juçara — Não foi necessário se fazer nenhuma adaptação.

Boletim Apae — Como foi a aceitação por parte dos outros profissionais?

Juçara — Um mês antes da chegada desses jovens foram contratadas 35 pessoas para prestar serviços nas diferentes áreas da Coordenação, dos quais 13 foram alocados no setor de conservação e restauração. Portanto, tínhamos duas equipes chegando praticamente ao mesmo tempo. Para que não houvesse nenhum tipo de problema quanto à adaptação dos jovens da Apae, foi realizada, dias antes da chegada do grupo, uma reunião com toda a equipe da Coordenação e monitores da Apae, onde pudemos conhecer mais de perto nossos novos colegas. Resultado: o entrosamento dos jovens da Apae com a equipe foi imediato. Como eles começaram a trabalhar no mês de dezembro, tiveram a oportunidade de participar de todas as comemorações natalinas, o que facilitou ainda mais a integração com a equipe.

Boletim Apae — Qual a maior dificuldade encontrada no dia-a-dia ao lidar com trabalhadores com deficiência intelectual?

Juçara — Temos no grupo oito auxiliares de higienização e um instrutor. Desse grupo, dois são considerados autônomos e seis trabalham sobre a supervisão do instrutor. Até o momento não tivemos nenhum problema, eles são extremamente responsáveis.

Boletim Apae — Qual a sua avaliação sobre o trabalho desses jovens?

Juçara — Eles desenvolvem um trabalho de excelente qualidade e têm uma produção compatível com os demais funcionários da seção. São muito detalhistas e criteriosos. Atualmente, estão realizando a higienização de cerca de 4.000 volumes de obras raras, pertencentes ao nosso acervo de coleções especiais.

Boletim Apae — Como tem sido o apoio e a participação da Apae nessa parceria?

Juçara — O contrato da Apae teve o total apoio da instituição e faz parte do Programa de Acessibilidade da Câmara dos Deputados que tem, como finalidade, combater as desigualdades sociais, disseminar o respeito às diferenças e tornar a Câmara um exemplo de responsabilidade social na administração pública.

Boletim Apae — Qual é a sua percepção sobre a inclusão da pessoa com deficiência intelectual no mercado de trabalho?

Juçara — Acredito que ainda estamos muito distantes do ideal, porém o contrato feito pela Câmara dos Deputados serve de exemplo para outras instituições. A chegada dos jovens teve uma grande repercussão. Eles foram entrevistados por várias emissoras de TV e jornais. Outros órgãos de Brasília ficaram interessados em desenvolver projetos semelhantes. Sei que o preconceito ainda existe e que as dificuldades são muitas, mas acredito que o exemplo faz a diferença. Fico feliz de poder participar do processo de crescimento profissional e pessoal desses jovens.


<< voltar