O acesso da pessoa com deficiência intelectual ou múltipla no mercado de trabalho ainda é muito restrito, se comparado às demais deficiências. Alguns estudos chegam a apontar a ordem de preferência na contratação desse público e o deficiente intelectual, geralmente, encontra-se em último lugar.
Pode-se afirmar que o principal fator que leva a não-contratação de deficientes intelectuais é a falta de conhecimento, por parte de gestores e empresários, do potencial dessas pessoas. Normalmente, confunde-se o conceito de deficiência intelectual com "loucura", o que reforça a ideia de que os mesmos não podem ser inseridos no mercado de trabalho.
A entrevista desta edição é com Juçara Quinteros de Farias, formada em Química, com mestrado na Área de Conservação e Preservação de Bens Culturais. Juçara é funcionária da Câmara dos Deputados há 22 anos, sendo que, em 2007, passou a ser chefe da Seção de Conservação e Restauração da Casa. Desde dezembro do ano passado, coordena oito funcionários com deficiência intelectual, em um projeto de higienização do acervo documental na Câmara.
Boletim
Apae — Por que você optou pela contratação de
jovens com deficiência intelectual?
Juçara
— A Câmara dos Deputados, em sua estrutura organizacional,
dispõe de uma Assessoria de Projetos Especiais. Dentre
os vários projetos desenvolvidos está o Projeto de Acessibilidade
que trata especificamente da inclusão social de pessoas
portadoras de necessidades especiais. Considerando a capacitação
e a especialização desses jovens na área de higienização
de acervo documental e, tendo em vista o extenso acervo
da Casa que necessitava, com urgência, desse tipo de tratamento,
decidiu-se que seria uma ação não somente em benefício
da categoria mas, fundamentalmente, em prol da sociedade,
por se tratar da preservação histórica e cultural do nosso
país. A assinatura do contrato foi realizada no Dia da
Acessibilidade, em 3 de dezembro de 2008.
Boletim
Apae — Como tem sido a experiência em trabalhar
com estes jovens?
Juçara
— A nossa experiência não poderia ser melhor,
além da qualidade dos serviços prestados, são excelentes
colegas de trabalho.
Boletim Apae — Houve algum tipo de adaptação
para receber esses funcionários?
Juçara
— Não foi necessário se fazer nenhuma adaptação.
Boletim
Apae — Como foi a aceitação por parte dos outros
profissionais?
Juçara
— Um mês antes da chegada desses jovens foram contratadas 35 pessoas para prestar serviços nas diferentes áreas da Coordenação, dos quais 13 foram alocados no setor de conservação e restauração. Portanto, tínhamos duas equipes chegando praticamente ao mesmo tempo.
Para que não houvesse nenhum tipo de problema quanto à adaptação dos jovens da Apae, foi realizada, dias antes da chegada do grupo, uma reunião com toda a equipe da Coordenação e monitores da Apae, onde pudemos conhecer mais de perto nossos novos colegas. Resultado: o entrosamento dos jovens da Apae com a equipe foi imediato. Como eles começaram a trabalhar no mês de dezembro, tiveram a oportunidade de participar de todas as comemorações natalinas, o que facilitou ainda mais a integração com a equipe.
Boletim
Apae — Qual a maior dificuldade encontrada no
dia-a-dia ao lidar com trabalhadores com deficiência intelectual?
Juçara
— Temos no grupo oito auxiliares de higienização e um
instrutor. Desse grupo, dois são considerados autônomos
e seis trabalham sobre a supervisão do instrutor. Até
o momento não tivemos nenhum problema, eles são extremamente
responsáveis.
Boletim Apae — Qual a sua avaliação
sobre o trabalho desses jovens?
Juçara
— Eles desenvolvem um trabalho de excelente qualidade
e têm uma produção compatível
com os demais funcionários da seção.
São muito detalhistas e criteriosos. Atualmente,
estão realizando a higienização de
cerca de 4.000 volumes de obras raras, pertencentes ao
nosso acervo de coleções especiais.
Boletim Apae — Como tem sido o
apoio e a participação da Apae nessa parceria?
Juçara
— O contrato da Apae teve o total apoio da instituição
e faz parte do Programa de Acessibilidade da Câmara
dos Deputados que tem, como finalidade, combater as desigualdades
sociais, disseminar o respeito às diferenças
e tornar a Câmara um exemplo de responsabilidade
social na administração pública.
Boletim Apae — Qual é a
sua percepção sobre a inclusão da
pessoa com deficiência intelectual no mercado de
trabalho?
Juçara
— Acredito que ainda estamos muito distantes do ideal,
porém o contrato feito pela Câmara dos Deputados
serve de exemplo para outras instituições.
A chegada dos jovens teve uma grande repercussão.
Eles foram entrevistados por várias emissoras de
TV e jornais. Outros órgãos de Brasília
ficaram interessados em desenvolver projetos semelhantes.
Sei que o preconceito ainda existe e que as dificuldades
são muitas, mas acredito que o exemplo faz
a diferença. Fico feliz de poder participar
do processo de crescimento profissional e pessoal desses
jovens.
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